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Consciência negra

Campanha do Serpro utiliza depoimentos de empregados e empregadas

por Comitê de Equidade de Gênero e Raça do Serpro — 21 de novembro de 2017
Situações reais vividas por pessoas que trabalham na empresa dão pistas de que o racismo ainda persiste no cotidiano

“Em doze anos de empresa, nunca passei por algum caso de discriminação, ao menos que tenha percebido. A gente sente o racismo só pelo olhar e, claro, nesses período tive esse sentimento algumas vezes, mas sem importância em relação ao convívio que tenho com os amigos do Serpro. Agora, uma frase que escuto constantemente fora do âmbito corporativo é “Você não tem cara de quem trabalha com TI”. Essa frase me intriga e me faz pensar que está relacionada ao estereótipo que nos associa ao “trabalho braçal, sem necessidade de muita qualificação.

A ideia de utilizar frases racistas que os próprios colegas reportam ter escutado tem o sentido de sensibilizar as pessoas para a realidade de que "o preconceito ainda pulsa forte no nosso dia a dia", explica Thais Argolo, do Comitê de Equidade de Gênero e Raça do Serpro. “Esse preconceito muitas vezes passa despercebido, especialmente para quem não o sofre. Muitas vezes, uma pergunta que parece natural é ofensiva, porque ela parte de um pressuposto de que pessoas negras são assim, ou assado, ou devem fazer tal ou qual coisa”, detalha. Por isso a escolha de frases reais para trazer ao debate. Puxando rapidamente pela memória, a profissional é capaz de relembrar frases que ela mesma já escutou:

“Até que para uma negra você é bonita”.

“O racismo não passa de vitimismo; o passado é o passado.”

“O seu cabelo dá impressão de que você levou um choque”.

“É frequente, para a gente que trabalha no Comitê de Equidade, ouvir colegas dizerem aquilo que alguns dos depoimentos abaixo confirmam: às vezes, as próprias pessoas negras repetem ideias preconceituosas contra elas próprias. Mas isso não significa que nossa campanha não tenha sentido. Pelo contrário”, ressalta Thais. “Estamos combatendo uma ideia preconceituosa, não um grupo. Isso só torna mais evidente que não é uma divisão entre uns e outros. O que é preciso é que todas as pessoas, de qualquer etnia, se unam contra o racismo. Mas sem a ingenuidade de não perceber que ele ainda existe, tanto simbolicamente quanto no nível mais concreto, causando  violência e morte”, destaca.

Argolo informa que as frases abaixo foram colhidas entre vários colegas. Como alguns não se sentiram a vontade de revelar sua identidade, foram todas misturadas e manteve-se o anonimato. “Mas são todas reais. Infelizmente”, declara.

“É comum (seguranças) me seguirem nas lojas, como se eu fosse furtar algo na primeira oportunidade. Com uma constância que não acontece com pessoas brancas.”

“Ouvi uma guria lamentar, numa rodinha de amigas, por um lado da família dela ter ‘cabelo ruim’; que por causa disso seu cabelo não era liso”

Ouvi falarem "O pedreiro fez negrice lá na obra".

“Quando era mais nova, levei o namorado no coquetel da minha formatura e um colega falou com ele, num tom evidentemente malicioso, que ele era ‘um cara de sorte’. Hoje sei que é frequente hipersexualizarem mulheres negras”.

“Tive uma amiga que namorava um negro e o tio dela disse que ninguém namoraria ela depois, porque ela estava namorando um negro. Isso ocorreu há 30 anos, mas não sei se evoluímos muito nesse sentido.”

“Um parente me falou que eu estava ‘limpando’ a família, porque meu namorado era branco”.

"Gostaria de casar com uma mulher negra para que meus filhos pudessem entrar na universidade usando as cotas"

 

 

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