Serpro: ano da convergência com tecnologia livre
Disseminar as tecnologias livres nos órgãos públicos, em projetos de inclusão digital voltados à população e, sobretudo, nas ferramentas utilizadas para transmitir voz, dados e imagens.
São sobre estes pilares que estão baseadas as ações do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) para os próximos meses.
Quem afirma é o diretor do Serviço Federal de Processamento de Dados, Sérgio Rosa, em entrevista exclusiva ao COMPUTERWORLD.
O executivo faz um balanço sobre as iniciativas do órgão e apresenta suas impressões sobre projetos de inclusão digital que avançaram - ou não - em 2005. Perspectivas sobre a área de TI no governo neste ano eleitoral também estão em pauta, assim como uma dura crítica ao modelo de telecomunicações em vigor no País. Leia os principais trechos da entrevista:
COMPUTERWORLD - Qual o balanço que pode ser feito sobre o software livre em 2005?
SÉRGIO ROSA - Estamos dando os passos possíveis e seguros na direção do software livre, além de termos encerrado 2005 com projetos notáveis, como o do MEC (Ministério da Educação), que prevê o fornecimento do software livre para as estações coletoras de presença nas escolas federais [o sistema fará o controle de freqüência dos alunos]. O projeto trará economia de cerca de 20 milhões de reais em licenças - e estamos satisfeitos com o andamento. No Serpro, temos 3566 máquinas já migradas para o software livre, sendo que existem outras cerca de duas mil a migrar. Só não implantamos ainda onde não é possível em virtude de determinadas aplicações.
CW - E sob o ponto de vista da infra-estrutura?
SR - Também existem avanços notáveis, como a saída gradual de plataformas altas para outras avançadas com Linux. Pretendemos neste ano passar, em alguns setores, das linguagens dos grandes mainframes para outras arquiteturas. A intenção é ter tudo migrado até março.
O Serpro também está avançado no projeto de VoIP (voz sobre IP) em plataforma livre. A solução foi discutida durante um congresso regional realizado no Ceará, em novembro passado, e reuniu muito trabalho intelectual das universidades. Até janeiro ou fevereiro esperamos a homologação.
Queremos que 2006 seja o ano das tecnologias sem-fio, seja por VoIP ou convergência via software livre, unificando imagem e som. O foco do Serpro estará nos serviços que podem ser agregados aos sistemas prestados.
Outra grande novidade é o correio eletrônico livre que estamos integrando com outras soluções. Já fizemos os testes e a solução deve entrar em produção nos próximos meses, assim como a versão aberta do comunicador instantâneo Jabber, que também estamos testando.
CW - O projeto de inclusão digital "Computador para Todos" também foi destaque no ano passado, mas gerou muitas polêmicas principalmente no que diz respeito à ausência de um pacote ajustado de conexão à internet. Como o senhor avalia a iniciativa?
SR - Podemos dizer que não é o Computador para Todos que é desconectado, mas o Brasil é desconectado. A infra-estrutura de telecomunicações no País ainda é muito ruim e a estratégia de disseminar a banda larga ainda não se socializou. Quando os problemas de capilaridade das teles forem resolvidos, não precisaremos nada de especial para tornar esse programa concreto. Mas falta vontade das teles em melhorar o sistema. Enquanto isso não for resolvido, continuaremos com baixo índice de conexão e serviços de péssima qualidade. Mas por outro lado, os programas públicos têm contribuído para facilitar a chegada das informações ao cidadão.
CW - E como o senhor avalia o andamento dos demais projetos de inclusão digital?
SR - Conseguimos ver em 2005 ações acontecendo em várias esferas, resultado daquilo que consideramos: inclusão digital tem de ter política industrial. Vemos que o Casa Brasil, que trará resultados no médio prazo, deverá tratar o assunto como carro-chefe da política. Acredito que a tendência para o assunto deva continuar forte em 2006.
CW - Outro assunto que marcou o segundo semestre do ano passado foi a Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, que evidenciou mais ainda o debate sobre a democratização da internet. Qual o balanço que é possível fazer disso?
SR - Como já havia dito antes, considero positivos os resultados da Cúpula. Conseguimos que os Estados Unidos começassem a negociar a democratização da internet. A reunião também colocou em evidência cerca de cinco países do grupo dos 20 que participam mais ativamente da discussão. Mas, como em todo acordo, todas as partes dizem que ganharam e não reconhecem uma eventual derrota. Nesse caso, é possível dizer que o fórum para discutir a internet dentro da ONU já foi uma vitória, um avanço notável.
CW - Um dos grandes temas em pauta neste início de ano é o novo padrão do passaporte brasileiro. Quais as principais estratégias em relação a ele por parte do Serpro?
SR - A equipe da ICAO - International Civil Aviation Organization - esteve no Brasil em dezembro e aprovou os termos da interoperabilidade. O Serpro tem a missão de desenvolver e integrar os sistemas de controle de tráfego internacional de pessoas e podemos dizer que já temos uma tecnologia excelente. Estamos agora dependendo da importação da solução que fará a leitura do novo sistema. Devemos começar o processo em fevereiro, com meta para término em agosto.
CW - E o que o Brasil pode esperar da TI em 2006 na esfera governamental, sendo este um ano de eleições?
SR - Posso dizer, pelo Serpro, que fazemos política de Estado e não de governo. Estamos traçando estratégias que terão seus frutos colhidos nos próximos 20 anos, independente das iniciativas de quem vier em seguida. Quem quer que chegue por aqui conseguirá se relacionar bem com a área e progredir com as iniciativas, cada um com seu jeito, cada instituição com seu fim.
Computerworld, Camila Fusco, 3 de janeiro de 2006
