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Some o clima de incertezas de um ano eleitoral à competição cada vez mais acirrada entre os fornecedores de TI

Acrescente a tudo isso um aumento da demanda dos usuários corporativos por soluções para reduzir custos operacionais. O resultado: um cenário complexo de negócios para os canais de distribuição em 2006.

"O jogo ainda está muito incerto para prever os próximos acontecimentos", considera Alberto Luiz Albertin, coordenador e professor da área de TI da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao analisar as perspectivas de investimentos deste ano. Nas contas do especialista, os orçamentos anuais de tecnologia das empresas no Brasil devem crescer menos de 10% em 2006, repetindo a performance dos últimos dois anos.

Albertin considera que não existe um motivador tecnológico que justifique saltos significativos nos aportes realizados pelas companhias. No entanto, ele aponta que a pressão para aumentar a eficiência dos negócios pode ser um fator favorável aos investimentos em TI e telecom. "Fornecedores e parceiros devem estar preparados para tornar o uso da tecnologia cada vez mais racional", aconselha o especialista, que alerta: "Os clientes investirão apenas no que realmente trará benefícios para o resultado final da empresa".

A tendência de restringir os orçamentos a questões básicas, por sinal, não é uma característica exclusiva das corporações brasileiras, conforme revela um estudo conduzido pelo Gartner. Segundo o instituto, o país deve até superar a média mundial de 5,5% de aumento nos investimentos em TI das grandes empresas para os próximos 12 meses. "Em 2005, a estimativa no Brasil girava em torno de 6,3%, enquanto a projeção global era de 2,9%", compara Ione Coco, vice-presidente do programa para CIOs do Gartner na América Latina.

Ainda de acordo com Ione, a despeito do receio de muitos analistas com a retração dos investimentos, o cenário eleitoral pode ser até interessante para os fornecedores de TI e telecom, já que o governo atual tende a apostar nas tecnologias como aliadas importantes no caminho de reeleição. Além disso, a especialista cita outras oportunidades importantes de negócios que podem ser aproveitadas pelos canais em 2006, como o aumento no número de projetos ligados às regras do Basiléia II e do Sarbanes-Oxley.

A adoção dos sistemas de BI (Business Intelligence) também encabeça a lista de prioridades dos ambientes de tecnologia. "Trata-se de um mercado em expansão e uma evolução do uso dos programas de gestão empresarial", concorda Alexandre Ligo, consultor da ITelogy. Segundo ele, a principal preocupação dos gestores que adotam esse tipo de sistema está relacionada a buscar ferramentas que ajudem a detectar novas oportunidades de negócios.

As soluções de VoIP (voz sobre IP) se juntam à lista de investimentos prioritários para o ano, juntamente com sistemas para gerenciamento de storage, virtualização de servidores, gestão da força de trabalho e automação de processos.

Outro alvo certeiro para os fornecedores de TI em 2006 são as soluções destinadas ao mercado de pequenas e médias empresas (SMB). "Este realmente deve ser um segmento importante, mas que exige um comportamento diferenciado dos canais em relação aos grandes clientes", enfatiza Albertin. Uma visão compartilhada com a consultora do Gartner, que acena com importantes oportunidades para as empresas interessadas em oferecer arquiteturas tecnológicas que permitam a integração à cadeia de valor.

Já no caso das grandes corporações, os setores de finanças (bancos e seguradoras), seguido por serviços, governo, indústria e telecom lideram os investimentos em TI no Brasil, de acordo com os analistas. Uma constatação que motivou CRN Brasil a ouvir empresas desses cinco setores, com o objetivo de destacar as principais oportunidades para os canais e ajudá-los a conquistar essa apetitosa fatia de clientes. Ou seja, criando um verdadeiro mapa dos tesouros corporativos em 2006.

Estratégia de peso
Com a expectativa de incrementar em quase seis vezes o orçamento de TI definido para 2006, o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) pretende destinar R$ 413 milhões aos projetos ligados às áreas de tecnologia e telecomunicações. "Há um aumento significativo de investimento neste ano, já que vamos consolidar as iniciativas em andamento", explica Sérgio Cangiano, diretor-financeiro da companhia.

Os principais planos para 2006 incluem implementação de VoIP na Infovia Brasília - rede de fibra ótica voltada à comunicação entre 52 órgãos públicos da capital federal -, serviços de internet, virtualização de servidores e de storage, desenvolvimento de uma rede sem fio (com a aquisição de produtos de Wi-Fi) e incremento da plataforma de grid computing (processamento compartilhado). Do total do orçamento, R$ 123 milhões serão destinados à compra de equipamentos e software, como também à manutenção e demais despesas com serviços.

Outra prioridade para o novo ano está relacionada à migração de soluções antigas para o software livre, bem como a aplicação da tecnologia em servidores corporativos.

"Buscamos ainda ferramentas de integração do legado e uma plataforma orientada a serviços, que permita interoperabilidade entre os sistemas", complementa Cangiano. De acordo com ele, a companhia busca trabalhar tanto com grandes fornecedores quanto com canais de distribuição.

Investimentos em software para gestão de processos de negócios - incluindo ferramentas de Business Intelligence (BI) -, soluções de certificação digital e o desenvolvimento de uma infra-estrutura capaz de prevenir fraudes e erros também balizam os planos da área de tecnologia.

Em 2005, o montante destinado a TI pelo Serpro atingiu a casa dos R$ 70 milhões e englobou reposição de equipamentos, aumento da capacidade de produção, aprimoramento da comunicação da rede, investimentos no parque de mainframes, bem como o aperfeiçoamento da segurança da informação e projetos de gestão em software livre. Além disso, a companhia destinou esforços à implementação de videoconferência.

Na área de inclusão digital, a entidade colaborou com o Projeto Casa Brasil, iniciativa do governo federal destinada à criação de telecentros. Junto com isso, investiu quase R$ 2 milhões no desenvolvimento de ferramentas de acesso à web para deficientes visuais, em parceria com o CPqD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento).

Investimentos refinados
Aprimorar os mecanismos de segurança da informação representa um foco permanente de preocupação das empresas do setor financeiro. Alinhada a essa tendência, a AGF Seguros - empresa do Grupo Allianz -, destina um orçamento anual para o desenvolvimento de ferramentas de antivírus e sistema de controle de acesso à web. "É uma obrigação para a instituição proteger os sistemas corporativos e uma preocupação antiga, principalmente com a chegada do internet banking", ressalta Emílio Vieira, diretor de TI e operações da seguradora.

Paralelamente à melhoria das soluções de segurança, a companhia destaca, como prioridade para 2006, o incremento da eficiência operacional e administrativa em torno das atividades que compõem o dia-a-dia dos negócios - por exemplo, precificação, cobrança, regulamentação de sinistros e atendimento ao assegurado e corretor. "Buscamos sempre a revisão dos processos e o aprimoramento do sistema para garantir mais agilidade, menos custos e redução da taxa de falhas dessas funções", lembra Vieira. Para suportar essa estratégia, a companhia destina esforços pesados ao aperfeiçoamento de ferramentas de gestão, como BPM (Business Process Management), workflow e BI.

Para complementar os investimentos permanentes da instituição, o diretor da AGF destaca ainda os gastos com governança corporativa e produtividade da equipe de TI. De acordo com o executivo, a preocupação com a eficiência das operações passou a ganhar mais atenção há cerca de dois anos, a partir de um trabalho freqüente de revisão e padronização da arquitetura de sistema.

Vieira destaca que as iniciativas na área de TI para o novo ano mesclam focos constantes de atenção com tecnologias inovadoras, como o caso de virtualização e consolidação de servidores, soluções de otimização da rede corporativa, voz sobre IP (VoIP) - principalmente com implementação em call centers -, automação da força-de-vendas, recursos de geolocalização e ferramentas de e-learning.

Apesar de não revelar o orçamento de TI definido para 2006, o executivo esclarece: "O valor cresce porque todo ano temos de mostrar ganho de produtividade. No entanto, é preciso reduzir o percentual destinado à tecnologia sobre o faturamento".

Embora trabalhe com uma equipe interna de desenvolvimento de sistemas, a AGF Seguros seleciona desenvolvedores de software do mercado quando o parceiro detém tecnologias específicas.

Do essencial ao inovador
Maior empresa brasileira na área de serviços de saneamento e água, a Sabesp - que atua no Estado de São Paulo - encara qualquer investimento em TI como uma oportunidade de trazer valor aos negócios. "Optamos por trabalhar com tecnologias consolidadas, mas somos inovadores em diversos aspectos", afirma Fernando Antonio Menezes, superintendente do grupo e responsável por projetos nas áreas de telecomunicações e informática. Como exemplo de ações arrojadas, ele cita a implementação da voz sobre IP, em 2005, com o intuito de integrar a comunicação entre as unidades localizadas na região metropolitana de São Paulo.

Já para este ano, quando o orçamento de TI deve crescer entre 10% a 12%, Menezes aponta investimentos estratégicos na área de segurança da informação - a partir da instalação de novos firewalls, entre outras ações - e na implementação de um sistema de geoprocessamento, graças ao financiamento de R$ 40 milhões do Banco Mundial.

Ao todo, a concessionária de serviços prevê investimentos de R$ 46 milhões na divisão de TI corporativa em 2006. Desse total, R$ 5 milhões serão aplicados na renovação do parque tecnológico. Além disso, a Sabesp reserva outros R$ 55 milhões para as despesas anuais com aluguel de máquinas, software e manutenção.

Os esforços da companhia para o novo ano estendem-se ainda à proteção física do data center, a partir da instalação de uma sala-cofre. Previsto para ser concluído em 2006, o projeto demanda um montante extra de aproximadamente R$ 7,4 milhões. Já para setembro, tem o desafio de finalizar a adaptação dos processos de negócios e sistemas de segurança às normas da Sarbanes-Oxley. "Esta ação consumirá cerca de 10% de todo o investimento estimado para o período", calcula Menezes.

O superintendente detalha que o maior valor despendido pela companhia na área de TI está relacionado ao contrato de mainframe com a Unisys, que consome 50% a 60% dos investimentos totais na divisão corporativa. Outra integradora, a Cimcorp, também concentra contratos de peso com a concessionária, ao responder pela oferta dos servidores e estações de trabalho utilizados na Sabesp.

O segredo para os canais que querem elencar o grupo de fornecedores, avisa Menezes, é ter qualidade na prestação de serviços de suporte e manutenção, bem como oferecer apenas equipamentos de primeira linha. Além disso, as empresas interessadas em trabalhar com a Sabesp devem participar das licitações, realizadas por meio de pregão eletrônico.

"Investimos apenas no que pode gerar resultados para os negócios, e o fornecedor que trabalha com a Sabesp já entendeu essa exigência", conclui o executivo.

Em total sinergia
Disposto a concluir o processo de reestruturação dos negócios, que teve início há cerca de dois anos, o Grupo Votorantim - um dos maiores conglomerados industriais privados do Brasil -, destina todos os esforços da área de tecnologia da informação a padronizar os sistemas das diversas indústrias que compõem a organização. "A principal iniciativa tem sido a implementação do ERP (Enterprise Resource Planning) da SAP em nossas empresas, atingindo os segmentos de cimento, papel e celulose, metais, química, agroindústria e energia", conta Fábio Faria, diretor corporativo de TI do grupo.

Conduzido pela Delloite, parceira de negócios da fornecedora alemã, o projeto teve início em agosto de 2004 e será finalizado até janeiro de 2007, graças a investimentos que excedem os US$ 40 milhões. Entre as nove indústrias que integram o conglomerado, cinco já foram contempladas com o ERP. A iniciativa também inclui a implementação da tecnologia nas empresas do grupo brasileiro que estão espalhadas em outros países, incluindo Canadá, Estados Unidos, Bélgica, Alemanha e Austrália.

Junto com a implementação do novo sistema de gestão de processos, a companhia deu início a diversos projetos para uniformizar outras áreas dos ambientes de TI de suas indústrias, com iniciativas voltadas às plataformas de PCs, funcionalidades dos sistemas Microsoft, infra-estrutura de rede local e banco de dados. "Todas as mudanças foram promovidas de 2004 para cá, mas o grande foco foi no último ano", conta Faria.

Para 2006, o maior desafio envolve a continuidade da implementação do sistema de gestão, principalmente nas grandes empresas do grupo, como a Votorantim Cimentos. "Ao final do projeto, teremos cerca de 12 mil usuários integrados, sendo que 8 mil deles ainda entrarão no processo neste ano", projeta o diretor. De acordo com o executivo, por conta da amplitude da iniciativa, o orçamento definido para TI deve saltar de 1,0% (valor estipulado nos anos anteriores) para 1,5% do faturamento líquido da companhia.

Atenta à expansão do mundo convergente, a Votorantim também prepara a adoção de voz sobre IP (VoIP) para este ano, bem como o incremento das tecnologias de mobilidade, por meio da aquisição de PDAs e telefones celulares. "Os recursos móveis serão utilizados não só na área comercial, mas em chão de fábrica, de forma a buscar ganho de produtividade", planeja o diretor. Recursos de gerenciamento eletrônico de documentos (GED) e a comunicação entre o ERP e o ambiente web complementam o plano de investimentos no período, ao lado da inauguração de um centro de competência em TI para suportar toda a estrutura tecnológica.

Em todo esse emaranhado de tecnologias, a Votorantim abre espaço para os canais de distribuição. Entre os atuais fornecedores da companhia, figuram desenvolvedores de software e integradores credenciados, a exemplo de Procwork, Unisys, Stefannini e Softek. "Exigimos um relacionamento bastante transparente em relação aos parceiros e soluções que possam ser aplicadas globalmente", indica o executivo, que avisa: "O pós-venda é o início da próxima venda, por isso, a empresa que quer ser um fornecedor nosso precisa atuar como uma extensão da Votorantim."

Rumo à consolidação
A nomeação de Ricardo Knoepfelmacher como novo presidente da companhia, em setembro, e a unificação das áreas de telefonia fixa, celular e banda larga figuram entre os primeiros passos da operadora Brasil Telecom rumo a um novo modelo de negócios, previsto para ganhar força neste ano. Apesar de definir uma política agressiva de contenção de custos para 2006 - incluindo a renegociação de contratos com fornecedores - a operadora estima investir mais de R$ 2 bilhões no período, o que inclui diversas ações de TI.

"Vamos cortar qualquer tipo de investimento novo em tecnologia e consolidar o que já foi feito", detalha Francisco Santiago, vice-presidente de operações da telco, que complementa: "Esse posicionamento não impedirá a companhia de lançar novos produtos e expandir os negócios". De acordo com ele, o objetivo é reverter um cenário de aumento expressivo nos gastos da operadora, observado nos últimos meses. Como exemplo, Santiago cita os custos totais de janeiro a setembro de 2005, que tiveram um acréscimo de 14% em relação ao ano anterior. Dentro desse desafio de equilibrar receitas, a tele trabalha para minimizar a evasão das receitas geradas pelas linhas fixas de voz, responsáveis por 80% dos resultados da operadora.

A perda de clientes, segundo o vice-presidente, está relacionada ao aquecimento da demanda na área de telefonia móvel e banda larga. A solução para driblar o cenário, detalha Santiago, está na oferta de soluções híbridas e produtos para fidelizar assinantes. "Mais de 80% de nossa perda de clientes está relacionada a uma pequena oferta de serviços agregados na concorrência", destaca Knoepfelmacher.

Em conjunto com integradores e fornecedores, a companhia espera ainda consolidar uma infra-estrutura interna capaz de suportar a expansão dos negócios para novos segmentos. A estratégia inclui a entrada no mercado de WiMax (solução de banda larga sem fio em longas distâncias) no padrão fixo, em fevereiro. Inicialmente, a solução será oferecida no Paraná e Rio Grande do Sul, mas a idéia é estender a oferta para todo o país. "Entraremos em processo licitatório no início do ano para a compra de equipamentos", ressalta Santiago. Já para o segundo trimestre do ano, a telco prevê as primeiras ofertas de soluções triple play, que reúnem recursos de voz, dados e imagem.

De olho na expansão da tecnologia IP no país, a Brasil Telecom prepara também o lançamento da solução VoipFone, em janeiro. "A tecnologia VoIP ainda é incipiente no mercado residencial, mas já mostra maturidade no segmento corporativo", acredita o presidente da operadora, lembrando que um dos focos do trabalho devem ser os pacotes para pequenas e médias empresas.

CRN Brasil (http://www.crn.com.br/), Silvia Noara Paladino, 5 de janeiro de 2006