Upload, download. De que lado você está?
Numa cena que parece tirada diretamente de um filme de suspense - ou melhor, numa sátira desse filme -, o líder líbio Muamar Kadafi convocou em agosto Nicholas Negroponte, ...
Numa cena que parece tirada diretamente de um filme de suspense - ou melhor, numa sátira desse filme -, o líder líbio Muamar Kadafi convocou em agosto Nicholas Negroponte, da Media Lab do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, para uma reunião numa tenda no Deserto do Saara, para conversarem sobre uma iniciativa chamada One Laptot per Child (Um Laptop por Criança), conhecida como OLPC.
Em seguida, no início deste mês, Kadafi separou US$ 250 milhões para o projeto do guru digital, indicando que, em 2010, o antigo estado pária da África do Norte poderá muito bem se tornar o primeiro país do mundo a garantir para cada criança na escola acesso a um computador e a uma conexão de rede.
Com a Argentina, Brasil, Nigéria e Tailândia seguindo de perto a Líbia, o computador OLPC já passou o estágio da demonstração; o grupo, uma entidade não lucrativa, promete entregar mais de um milhão de unidades em 2007. Conhecido como o laptop de US$ 100, esse computador tem uma tela integrada, teclado e uma câmera de vídeo. Requer menos de 10% da energia utilizada pelos computadores padrão e permite conexões sem fio com outros laptops OLPC, para formar uma 'rede integrada' que pode ser ligada à internet sem nenhum custo.
O que ele não tem é algum software produzido pela Microsoft, uma opção que parece ter deixado Bill Gates muito decepcionado e possivelmente aumentou a ansiedade que ele e sua empresa sentem quanto ao seu lugar no mundo futuro dos computadores.
O filantropo bilionário não é o único a se retirar de uma batalha nessa área, e no inicio deste ano ele apresentou a sua própria versão do futuro - um protótipo que chamou de 'PC celular'. Um sistema de telefone inteligente, baseado, naturalmente, no Windows CE da Microsoft.
É estupidez da minha parte me intrometer numa disputa entre o homem mais rico do mundo, um potentado do Oriente Médio e o irmão do principal espião dos Estados Unidos (John D. Negroponte é diretor do serviço nacional de inteligência). Mas as apostas estão cada vez mais altas do que imaginam esses mestres da 'realpolitik' .
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, matemáticos, engenheiros, visionários e artistas sonharam com uma máquina que conseguisse simular todas as outras mídias e se conectar com a comunidade criativa em todo o mundo. Os 'jetpacks' (espécie de mochilas com propulsores para voar) e os robôs falantes que as pessoas esperavam em meados do século 20 nunca se materializaram. Mas o computador como máquina de cultura existe e é uma das maiores dádivas que o presente tem a dar para o futuro.
No entanto esta dádiva valerá muito pouco no final se desenvolvermos e distribuirmos computadores mais adaptados para fazermos 'download'(baixar dados de um computador) do que 'upload' (transferir dados de um computador para outro).
Pense na televisão como uma grande ferramenta para se fazer 'download', um fluxo de conteúdo que vai numa única direção, produzido por poucos e consumido por muitos. O computador em rede, por outro lado, leva em conta tanto produtores como consumidores e a distribuição é tanto individual como universal. É isso que o torna tão revolucionário quanto a máquina impressora.
A possibilidade de se fazer 'download' pode ser uma grande coisa, dando a escolares pobres o acesso a enciclopédias e livros de texto online que, do contrário, eles jamais poderiam se permitir. Porém é a capacidade extraordinária da internet para fazermos 'upload' da nossa própria música, imagens e opiniões que o torna fundamental para o desenvolvimento da cultura do século 21.
E é por isso que o laptop OLPC parece superior à alternativa baseada no telefone celular proposta por Gates. Os telefones celulares possibilitam a comunicação e permitem que se faça download de toques da campainha do telefone e de partes de conteúdo de multimídia. Mas escrever o '101' (equivalente ao 'LOL', acrônimo muito usado na internet, em salas de conversação, jogos, mensagens, e que significa 'laughing out loud' , gargalhando) para indicar alegria é o que queremos realmente exportar para o mundo em desenvolvimento?
Bill Gates e outros sugerem que as limitações do telefone celular - tela e teclados minúsculos - podem ser sanadas com a adição de teclados portáteis e a conexão do dispositivo inteiro a uma televisão. Isso poderá ser possível a longo prazo, mas no momento os celulares estão muito mais ajustados ao consumo de cultura que à produção de cultura.
Devemos exportar ferramentas que promovam algo mais do que fazer download - especialmente para os jovens e pessoas pobres. Daqui a 30 anos, quando nossos netos e seus amigos na Líbia perguntarem, 'de que lado da guerra entre o download e o upload você está, vovó', o que você vai responder? Peter Lunenfeld é professor de media design no Art Center College of Design em Pasadena, escreveu para o Los Angeles Times
O Estado de S. Paulo – SP, Peter Lunenfeld, 27 de outubro de 2006
