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Semana de IA Serpro
Poder de decisão do Estado pauta abertura da 2ª Semana de IA Serpro

"Soberania significa domínio sobre aquilo que você usa", afirmou o diretor-presidente do Serpro, Wilton Mota, na abertura da 2ª Semana de IA Serpro, nesta quarta-feira, 4, na sede da estatal, em Brasília. O presidente recorreu ao exemplo de um piloto que, mesmo sem ter desenvolvido a tecnologia do avião, conhece os sistemas a bordo e decide se usa a automação, como pousa e onde pousa.
Para um órgão público que adota inteligência artificial, esse domínio passa por saber onde os dados são processados, quem pode acessá-los, como governá-los e em que condições é possível trocar de fornecedor sem interromper um serviço. Em sua fala, citou o Gradiente de Soberania, método criado pelo Serpro para classificar nuvens conforme o grau de controle sobre dados, operação e tecnologia. A proposta, explicou, é usar as nuvens mais bem classificadas para tratar dados sensíveis. "Tem dados públicos que não tem problema estar em qualquer Big Tech, qualquer país, qualquer lugar. Isso é normal. Mas dados sensíveis, eles têm que estar em um ambiente seguro", afirmou Mota ao destacar o papel do Serpro.
Quem controla a inteligência
A capacidade de escolher voltou à discussão no painel "IA Soberana: quem controla a inteligência, controla o poder de decisão". "Se você não controla os dados, se não controla a inteligência artificial, você vai ser controlado", resumiu o mediador da conversa, o superintendente de Inteligência Artificial do Serpro, Carlos Rodrigo Lima. Ele contou que a possibilidade de restrições à compra de GPUs, chips usados no treinamento e na execução de modelos de IA, levou a estatal a testar alternativas. "O futuro desse país não pode ficar à mercê de uma caneta", disse. Para ele, os testes ajudam a identificar quais equipamentos atendem a diferentes necessidades de processamento, levando em conta custo e capacidade de entrega.
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), Rogério Nunes, avaliou que o Brasil dificilmente chegará à fabricação de chips de ponta, mas pode se destacar em nichos da cadeia, como o encapsulamento. Em sua visão, é essa especialização que garante ao país poder de negociação. “Nós não podemos surfar só na onda da inovação internacional, nós precisamos ter também a nossa onda”, afirmou.
Renan Gaya, diretor de Estruturação de Dados e Inteligência Artificial do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), citou o login único do Gov.br como exemplo do que vários órgãos podem fazer com uma estrutura compartilhada. Ele defendeu aplicar a mesma lógica à IA. Uma plataforma comum permitiria incorporar requisitos de segurança e mecanismos de proteção que os órgãos poderiam reutilizar nos próprios serviços. "Quando a gente ganha escala, a gente ganha poder de compra", disse Gaya.
Do boletim de ocorrência ao atendimento em português
"Eu desliguei a consulta porque eu disse para o médico que eu estava variando", relembrou o secretário de Inteligência Artificial do Piauí, André Macedo, ao reproduzir o relato de uma paciente atendida por telemedicina. Na palestra "Soberania: a jornada do Piauí na construção de uma IA de Estado", André contou que a expressão regional "variando" queria dizer que ela estava com tontura. O secretário usou o episódio para mostrar por que serviços digitais precisam compreender como as pessoas falam.
Essa preocupação orientou o desenvolvimento do SoberanIA, modelo treinado em português e usado no BO Fácil, ferramenta criada para o cidadão registrar ocorrências na polícia local por áudio, pelo WhatsApp. Não é mais necessário ir à delegacia ou acessar sistemas para comunicar a perda de um documento ou uma briga de condomínio, por exemplo: o cidadão relata o ocorrido e a tecnologia transforma a conversa em um documento oficial da polícia.
O BO Fácil já se tornou o Polícia Fácil e chegou ao Corpo de Bombeiros. A mesma lógica deu origem ao Regula Fácil, na saúde, que permite consultar a disponibilidade de medicamentos na Farmácia Popular e a posição de um paciente na fila de regulação. Para o secretário, porém, oferecer o serviço não basta. "Não adianta ter o serviço disponível se ela não sabe utilizar", disse, sobre parte da população. Ele citou o caso de cidadãos que não conseguiam acessar o serviço porque o login exigia um e-mail que eles não tinham.
A desigualdade no acesso também esteve na palestra "Desafios para uma IA soberana", na qual Dora Kaufman, professora da PUC-SP, abordou diferenças no uso da tecnologia por escolaridade e renda.
Semana de IA Serpro segue até sexta-feira
Com o tema "IA Soberana: Dados, Tecnologia e Poder de Decisão", a segunda edição do evento reúne representantes do governo, da academia, de centros de pesquisa e de empresas de tecnologia. O primeiro dia teve ainda apresentações de Pedro Frantz, da Receita Federal, sobre aprendizado federado, e de Rodrigo Scotti, da Associação Brasileira de Inteligência Artificial, sobre o lugar do Brasil no cenário da IA.
Na quinta-feira, 5, a programação aborda parcerias em nuvem, governança e regulação da IA. Na sexta-feira, 6, estão previstas uma apresentação do TJDFT sobre ferramentas tecnológicas de proteção a mulheres em situação de violência doméstica, a apresentação da plataforma IA do Brasil e experiências do Tesouro Nacional. Confira a programação completa.
A transmissão é aberta no canal do Serpro no YouTube. Quem quiser certificado deve se inscrever e acompanhar a programação pelo Microsoft Teams. Inscreva-se na página do evento.