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Combate à homofobia
“Piada boa é a que não faz ninguém chorar”

Arthur Irigaray, Doutor em Administração de Empresas pela FGV-SP
O professor universitário Arthur Irigaray conheceu cedo o que é discriminação: na convivência com nove irmãs, acompanhou de perto o preconceito que as atingia por serem negras. “Isso foi uma primeira motivação para tentar entender os mecanismos dos preconceitos”, explica. Sua tese de doutorado pela Fundação Getúlio Vargas é resultado de uma pesquisa que analisa como o humor discriminatório afeta as relações profissionais. O estudo também pontua por que cada vez mais as empresas atentam para a questão da equidade relacionada à diversidade sexual. “O humor é uma coisa fantástica, mas se uma piada atinge de maneira ruim um grande número de pessoas, é necessário pensar sobre isso. Piada boa é aquela que faz todo mundo rir. Ou que, pelo menos, não faz ninguém chorar”.
Por que empresas se preocupam com a questão da diversidade?
Clima organizacional é algo fundamental: a pessoa precisa se sentir segura e respeitada para ter vontade de trabalhar em equipe, cooperar. No limite, isso redunda em mais produtividade, ajuda a atrair e reter talentos. Por isso as empresas estão investindo pesadamente nisso, inclusive as grandes do setor de tecnologia. Nos rankings de “melhores empresas para se trabalhar”, a política de equidade e diversidade é um dos itens avaliados, assim como nos modelos de balanço social.
De que forma sua pesquisa relaciona humor e discriminação?
Um traço forte da cultura brasileira é o bom humor, e isso serve para o bem e para o mal, pois mascaramos nossos preconceitos por meio de comentários “bem-humorados”. O problema do humor homofóbico é que ele agride e coloca os homossexuais em uma posição difícil de se defender. A pessoa diz: “Não, não estou te agredindo. Estou só brincando”, sem entender que brincadeiras podem ser ofensivas.
Como é que se pesquisa esse tipo de comportamento?
Primeiro, por observação. A gente se coloca na empresa e observa as maneiras de agir, os comentários. Depois, entrevistamos as pessoas, tanto hétero como homossexuais. Houve o caso em uma multinacional, que tem uma política forte de diversidade, no qual um funcionário me disse, apontando uma animação no site: “Não, aqui não tem preconceito não. Olha o site da empresa. Tem até um viadinho pulando aqui”. Qualquer discriminação tende a ser mascarada com brincadeiras. O humor revela tensões sociais. Tenta reduzir o atrito entre as relações, mas não significa que ele elimine esses atritos, ele só serve de disfarce, e acaba apontando, dando pistas de como se dá a discriminação.
O que distingue a discriminação que atinge gays e lésbicas de outros tipos de preconceito?
O racismo é criminalizado. Se a pessoa fizer uma observação racista, ela vai presa. Já o combate ao sexismo vem sendo favorecido com o crescente número de mulheres no mundo do trabalho. Mas, ainda assim, repare que as piadas sexistas também são recorrentes, sobre mulher no volante, sobre loiras, tem várias. Mas o que acontece com gays e lésbicas é que sua identidade social é invisível. E isso é um componente fragilizador, porque existe uma espécie de busca para confirmar se a pessoa é homossexual. A sociedade brasileira ainda é bem machista, ainda tem muito “Será que ele é?” e “Taca a pedra na Geni”.
"Você não precisa tomar como modelo a forma de vida da outra pessoa. Pode discordar por motivos religiosos, ou outros. Mas precisa respeitar"
Qual a relação entre homofobia e machismo?
Há um certo pensamento do tipo: “Ele está querendo se comportar como mulher” - e isso parece inadmissível para muitos. Eu acredito que atrás da homofobia existe um traço forte de misoginia, que significa o preconceito à mulher e às coisas tidas como femininas.
O tema da diversidade, por ser relativamente novo, leva muitas pessoas a se perguntarem: qual o efeito real dessas políticas? Por que uma empresa deveria se preocupar com isso?
Algumas pessoas resistem, até mesmo ficam indignadas, mas não há por quê. Você não precisa tomar como modelo a forma de vida da outra pessoa. Pode discordar por motivos religiosos, ou outros. Mas precisa respeitar. E o respeito inclui aquilo que se diz de maneira descontraída. O efeito dessas políticas, quando conseguem de fato alterar comportamentos, pode ser tão forte que chega a reduzir afastamentos por motivos médicos. E isso é fácil de compreender: a pessoa que é assediada moralmente, ela adoece. A política de equidade de gêneros, de etnias, de diversidade, é uma política boa para todo mundo. Mas é aos poucos que as pessoas vão compreendendo isso.
Serpro garante equidade de direitos desde 2007
Por meio de Acordo Coletivo de Trabalho, o Serpro equiparou os direitos de pessoas homossexuais a heterossexuais, há oito anos. Isso significa o acesso a plano de saúde do companheiro ou companheira homossexual com quem se tem União Civil Estável, além de usufruto de licenças como a de acompanhamento médico.
A empresa também implantou o Programa Serpro de Equidade de Gênero e Raça (PSEG) em janeiro de 2007. Desde aquela data, vem anualmente recebendo o selo de reconhecimento emitido pelo governo federal por ter iniciativas em prol da equidade e diversidade.
Em alusão ao Dia Internacional contra a Homofobia, a proposta deste ano foi colocar em pauta o uso de humor como condutor de preconceito, mesmo que de forma involuntária, com o mote Homofobia não tem graça.
Para ler o artigo acadêmico, acesse Humor e discriminação por orientação sexual no ambiente organizacional.