General
Outubro Rosa
Prevenção do câncer de mama se faz com controle e cuidados

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de mama "é uma doença resultante da multiplicação de células anormais da mama, que forma um tumor. Há vários tipos de câncer de mama. Alguns se desenvolvem rapidamente, outros não". Ainda de acordo com o Inca, esse é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do câncer de pele não melanoma. O câncer de mama responde por cerca de 25% dos casos novos de câncer a cada ano.
Existe tratamento para a maioria desses casos. Mas prevenir a aparição e frear o desenvolvimento da doença são alternativas possíveis desde que haja informação disseminada na sociedade. Nesse sentido, o Serpro entrevistou a médica e professora Fátima Vogt, chefe do Serviço de Mastologia do Hospital da Universidade de Brasília.
Portal Serpro - É válido fazer campanha para o autoexame das mamas, incentivar mulheres ao autotoque que investiga se existe algum nódulo?
Dra. Fátima Vogt - Para que uma pessoa leiga tenha condições de diagnosticar um câncer pela palpação, é necessário que o nódulo tenha mais de um centímetro. E um nódulo demora, em média, seis anos para atingir esse tamanho. De um clone celular até um tumor, são milhares de células a se desenvolver. Ressalto que essa é a média. Podem ocorrer casos em que a doença progride mais rápido, porque há vários tipos de câncer de mama. O que se pode dizer é que normalmente eles têm um crescimento lento até chegarem a ser perceptíveis. Depois disso é que o crescimento se acelera.
Mas, em nossa realidade, muitas mulheres ainda não têm acesso a um bom exame clínico ou a uma mamografia de boa qualidade, realizada em intervalos regulares. A detecção de casos, no Brasil, costuma se dar quando o câncer já chegou a mais de um centímetro, na maioria dos casos, principalmente nas pacientes que utilizam o SUS (Sistema Único de Saúde). Tendo isso em mente, faz sentido fazer campanha para o autoexame.
Outra vantagem de incentivar o autoexame é fazer com que as mulheres conheçam melhor seu corpo, tornando-se mais atentas às alterações e sendo capazes de notar o aparecimento ou crescimento de lesões mais precocemente.
Contudo, é importante que não seja algo estressante para elas.
O ideal, portanto, seria universalizar o acesso ao atendimento clínico?
Sim. Pleiteamos que todas as mulheres tenham acesso a um exame clínico pelo menos uma vez por ano. E garantir, a partir dos 50 anos, o acesso ao exame anual de mamografia, pelo menos até os 69 anos. Após essa idade, deveríamos oferecer mamografias a cada dois anos ou quando necessário, para o esclarecimento de alterações. Mas se houvesse pelo menos a cada dois anos, o impacto positivo seria importante. Se a mulher faz uma mamografia anual, seremos capazes de diagnosticar mais cedo alterações como as microcalcificações agrupadas, que muitas vezes antecedem ao diagnóstico do câncer.
A mamografia ainda é a maior arma que temos para o diagnóstico precoce, quando ainda não existe um tumor palpável. Essas campanhas destinam-se, principalmente, à população com baixo risco de desenvolver câncer de mama. Outro tratamento deve ser dado a mulheres que apresentam predisposição familiar, por exemplo, quando outras mulheres da família já tiveram câncer de mama. Ou ainda àquelas que já têm diagnóstico de câncer identificado.
Algumas instituições, como o Inca (Instituto Nacional de Câncer), propõem a realização de mamografia a cada dois anos, em vez de anual. Isso é por causa do risco das mamografias?
Não, é uma questão gerencial que deve ser levada em conta. Pensando em atendimento massivo, se a maioria das mulheres fizer um exame a cada dois anos, o risco de desenvolvimento de câncer será bem mais baixo. Mas na faixa dos 50 aos 69 o ideal mesmo seria fazer a cada ano.
Há algo que se possa fazer para evitar câncer de mama?
Cada pessoa vem com uma carga genética própria. O que sabemos é que nossos "genes ruins" vão sendo ligados de acordo com as condições do ambiente. Por exemplo, você pode ter um gene ruim que propicia morte por infarto. Mas se você se alimenta adequadamente, faz exercício regular, controla o estresse, enfim, aquela receita que a gente conhece, pode ser que esse gene ruim não seja "ligado". Só que diferente de uma luz, que se liga e depois desliga, um gene "ligado" não desliga mais, então essa questão de se prevenir com uma boa qualidade de vida é fundamental.
A mesma coisa vale para o câncer de mama. A gente pode nascer com uma alteração genética, que associada a outras alterações, vão colaborar para ligar ou não o gene. Agora há casos em que a avó tem câncer de mama, a mãe, a tia, como naquele caso da atriz Angelina Jolie, e esse é um tipo de gene mais agressivo, mas também mais raro.
O resumo da prevenção ao câncer de mama é esse: cuidar para ter uma vida mais saudável. Em específico, apenas fazer a reposição hormonal quando for indicado, com controle rigoroso e seguindo as orientações do seu médico. A terapia hormonal está indicada para mulheres com sintomas, na fase do climatério, acima dos 47 anos, para melhorar a qualidade de vida. Contudo, como qualquer remédio, deve ser utilizada de acordo com cada caso, após investigação criteriosa dos riscos e benefícios, discutindo como o ginecologista ou endocrinologista.
É possível verificar se temos esse "gene ruim" do câncer de mama?
Existem alguns testes capazes de verificar a presença de alguns genes que aumentam muito o risco de desenvolver câncer de mama. São as chamadas mutações do gene BRCA1 e BRCA2. Mas 100% de certeza não existe. Esse são exames caros. A pesquisa dessas mutações estão indicadas nos caso em que exista a tendência de câncer na família, em casos muito específicos.
No geral, o importante é facilitar o acesso aos cuidados médicos. Por isso necessitamos de iniciativas como essa do "Outubro Rosa", um alerta não para amedrontar, mas, ao contrário, para incentivar as mulheres a procurarem o controle clínico a cada ano, visitando uma pessoas que seja profissional da medicina e fazendo a mamografia. O fundamental é isso.
Comunicação Empresarial do Serpro - 3 de outubro de 2016 - alterada em 04/10/16