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Qualidade de Vida no Trabalho

Quando o ruído se torna prejudicial no ambiente de trabalho?

Especialistas falam sobre o impacto dos estímulos sonoros na atividade cognitiva e afirmam que a tolerância ao ruído varia de pessoa para pessoa
by Comunicação Social do Serpro - Belo Horizonte — 01 de april de 2016

Começa campanha de convivência no ambiente de trabalho, que aborda este e outros temas

Imagine-se diante de uma tarefa de trabalho. Você sabe o que tem que ser feito e como fazer, mas algo não vai bem e você não sabe exatamente o que é. Essa dificuldade de concentração e execução pode ter origem em níveis de ruídos inadequados no seu ambiente. Uma conversa exaltada entre colegas ou mesmo um celular em alto volume podem representar uma barreira para uma concentração plena.

Para entender um pouco melhor a questão, fomos ouvir o professor Francisco Antunes Lima, do Laboratório de Ergonomia e Organização do Trabalho da UFMG, e a professora Iara Sousa Castro, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Design, Ergonomia e Mobilidade da Escola de Design da UEMG. Em entrevista concedida ao Portal Serpro, eles explicam a diferença entre ruído positivo - aquele necessário à atividade laboral, e ruído negativo - um fator de ameaça à qualidade de vida no trabalho e, em casos extremos, à saúde. Uma exposição inadequada e constante ao ruído “favorece um quadro de cefaleia, sensação de ouvido cheio, fadiga e tontura. A continuidade dessa exposição pode desencadear uma perda auditiva irreversível, assim como, influenciar negativamente a vida social das pessoas”, informam.

De acordo com eles, cada indivíduo tem uma relação particular com o ruído, assim como cada atividade tem especificidades em relação a estímulos sonoros. Por essa razão, estudo cuidadoso de cada ambiente, assim como o diálogo com os trabalhadores sobre o seu dia a dia na empresa, é fator essencial para a construção de um ambiente de melhor convivência e de maior qualidade para todos. Confira a entrevista concedida em razão da campanha de convivência no ambiente de trabalho.

Na avaliação de vocês, qual a importância da ergonomia para um ambiente de trabalho saudável e produtivo?

A ergonomia pode contribuir para a adequação do ambiente de trabalho aos trabalhadores, promovendo segurança, melhoria da produção, conforto e bem-estar. Por meio de métodos ergonômicos, é possível compreender as atividades e adequar as condições para realizá-las. Isso significa fazer modificações, quando necessárias, nos postos de trabalho, nos instrumentos ou ferramentas utilizadas, no espaço, na organização do trabalho e nas tarefas. Essas modificações não apenas tornam o ambiente mais saudável mas também o trabalho mais eficiente e produtivo, evitando perdas e problemas de qualidade. No século XX, a separação entre engenharia e ciências da saúde impediu que essa visão integrada entre saúde e produção se desenvolvesse. A ergonomia procura suprir essa lacuna.

O ruído também é uma das variáveis de estudo da ergonomia?

Sim, pois os estímulos sonoros, positivos ou negativos, fazem parte das condições de trabalho e podem ser determinantes da fadiga. Primeiramente, a saúde dos trabalhadores pode ser afetada quando são expostos de maneira excessiva ao ruído, o que favorece um quadro de cefaleia, sensação de ouvido cheio, fadiga e tontura. A continuidade dessa exposição pode desencadear uma perda auditiva irreversível, assim como, influenciar negativamente a vida social das pessoas. Além das consequências relacionadas à saúde, o ruído pode interferir na segurança dos trabalhadores, sendo necessário protegê-los contra o ruído que os atrapalha ou impede as suas ações. Assim, é fundamental compreender quando o ruído funciona como fonte de informação positiva, ou seja, como informação significativa para os trabalhadores desempenharem suas atividades ou quando o ruído de fundo dificulta a percepção de informações significativas para os mesmos. Em certas situações de trabalho, a falta de percepção da informação pode ocasionar um acidente.

Quais seriam os limites de ruído que o ser humano suportaria?

Os limites de ruído suportados pelo ser humano equivalem ao intervalo de intensidade sonora entre 20 e 140 decibéis (dB). Os ruídos acima de 120 dB provocam sensação de desconforto e acima de 140 dB alcançam o limiar da dor.

Nível de ruído dB(A)Atividade
50 A maioria considera como um ambiente silencioso, mas cerca de 25% das pessoas terão dificuldade para dormir.
55 Máximo aceitável para ambientes que exigem silêncio.
60 Aceitável em ambientes de trabalho durante o dia.
65 Limite máximo aceitável para ambientes ruidosos.
70 Inadequado para trabalho em escritórios. Conversação difícil.
75 É necessário aumentar a voz para conversação.
80 Conversação muito difícil.
85 Limite máximo tolerável para a jornada de trabalho de 8 horas diárias.

Fonte: Iida, Ergonomia: projeto e produção. 2005, p. 505

E num ambiente de trabalho e concentração? Quais são os níveis de ruído recomendados?

As pessoas apresentam diferenças individuais em relação à tolerância aos ruídos. Embora a exposição a ruídos de até 85 dB durante 8 horas por dia não cause danos à saúde dos trabalhadores, a exposição acima de 65 dB dificulta a conversação e a concentração, podendo provocar aumento dos erros e redução do desempenho. Além do nível de intensidade sonora, a qualidade do ruído também influencia o desempenho.

Ruídos intermitentes ou agudos podem ser mais irritantes; ruídos significativos, como conversas sobre o trabalho, exercem mais força de distração. Por isso alguns trabalhadores usam fones de ouvido e escutam música durante toda a jornada de trabalho, mascarando ruídos e falas com outros sons, mas que podem causar danos devido a sua intensidade. Escritórios panorâmicos podem ser mais conviviais e facilitar conversas, mas causam perturbações pela inexistência de barreiras físicas. Soluções intermediárias, entre espaços abertos e salas individuais, podem ser mais adequadas, subdividindo o espaço com paredes de vidro (que permitem contato visual) e agrupando pessoas com atividades interdependentes em salas menores. Atividades que requerem interação frequente com outras pessoas, por telefone ou presencialmente, são incompatíveis com atividades que exigem forte concentração.

Qual o impacto do ruído inadequado para a atividade cognitiva e o bem-estar dos trabalhadores?

As tarefas que exigem muita atenção, concentração ou velocidade e precisão de movimentos sofrem prejuízos quando o trabalhador é exposto a ruídos intensos e podem piorar após duas horas de exposição. O ruído causa aborrecimentos quando promove a interrupção forçada da tarefa e pode prejudicar a memória de curta duração. Além disso, também prejudica as tarefas que exigem muitas informações verbais porque os trabalhadores precisam falar mais alto que o ruído e nem sempre são compreendidos. Conflitos entre colegas podem se originar dessas perturbações provenientes do ruído. Os efeitos do ruído podem afetar mesmo a vida pessoal e familiar, tornando os trabalhadores pouco tolerantes a ruídos do ambiente doméstico, como choro dos filhos.

O cuidado com o ruído no Serpro

A Superintendência de Pessoas (Supgp) ressalta que o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (Sesmt) atua no controle dos ruídos e de seus impactos para a segurança e saúde dos empregados, visando manter um ambiente saudável para todos.

No entanto, ressalta que os ambientes da empresa não possuem, via de regra, ruídos que excedam os níveis indicados pelas normas de saúde e segurança do trabalho. Assim, a maioria dos ruídos encontrados no dia a dia dizem respeito aos produzidos pelas pessoas nas interações próprias dos ambientes de trabalho.

Como, conforme os próprios especialistas disseram, a tolerância ao ruído é algo pessoal, é fundamental que todos tenham empatia e respeito pelo próximo, evitando excessos recorrentes que, ocorrendo, requerem atuação das gerências a fim de garantir um ambiente harmônico que valorize, ao mesmo tempo, as interações entre as pessoas e a garantia de um ambiente propício ao bom desempenho dos trabalhos.


Comunicação Social do Serpro - 4 de abril de 2016

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