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O que muda no governo digital com o advento de novas tendências na TI?

por Viviane Malheiros - com colaboração de João Paulo Novais, da Coordenação Estratégica de Inovação e Governança de TI do Serpro — 13 de novembro de 2017
Tecnologias surgem com frequência e transformam indústria, comércio e governo. Elas mudam as expectativas das pessoas e abrem portas para variados cenários
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Para o governo, novas tecnologias aumentam a expectativa do cidadão e, ao mesmo tempo, são uma oportunidade de entregar serviços melhores. Hoje, no Brasil, é possível verificar a autenticidade de carteiras de habilitação (CNH) com QR Code, e isto impulsou a CNH digital, que dispensa o porte da carteira em papel. O SNE, um aplicativo de notificação eletrônica - que oferece até 40% de desconto em infrações de trânsito – trouxe um modo novo de notificar que pode substituir, por completo, processos físicos de notificação via AR (aviso de recebimento). A plataforma de análise de dados GovData oferece acesso a bases integradas de governo, para gerar informações estratégicas com ferramentas de Analytics. Tais inovações vieram graças às tecnologias, como serviços de nuvem, smartphones, certificação digital, Big Data e Analytics. E todas melhoram a forma do governo entregar valor.

E o que está por vir? Quais as próximas tendências tecnológicas12? Quais as oportunidades e desafios de uma nova tecnologia como Blockchain, por exemplo? Ela poderá diminuir de forma drástica custos com transações e poderá, até, mudar a dinâmica de encontros amorosos na internet 3 (por exemplo, reduzindo perfis falsos).

Não há garantias de que uma tendência se concretizará. Mas seu estudo antecipado permite um olhar abrangente para o futuro e pode ser uma luz para direcionar estratégias e viabilizar a sustentabilidade de organizações e serviços em cenários novos. Esse estudo aumenta a chance de prover serviços mais condizentes com as expectativas crescentes. Por isso, o Serpro observa tendências tecnológicas que podem gerar soluções digitais inovadoras. Apontamos aqui tendências que estão no radar da empresa hoje.

Blockchain

Blockchain é um tipo de banco de dados distribuído (com múltiplas cópias) que guarda um registro de transações permanente e é à prova de violação, propiciando que negócios aconteçam de forma automática e direta entre pessoas, empresas e países.

Até Blockchain surgir, a forma mais confiável de realizar a transação de um ativo era por meio de uma autoridade central neutra (ex.: banco, cartório)4. Blockchain pode mudar essa dinâmica de intermediação, por permitir uma relação direta (peer-to-peer) entre as partes contratantes. Qualquer tipo de arquivo (texto, software, música) pode ser registrado na blockchain, que é transparente e acessível para os interessados. Cada item guardado é datado e origina uma espécie de assinatura, formada por letras e números, que garante a veracidade do conteúdo.  

Uma das dez principais tendências tecnológicas1, o Blockchain é uma das tecnologias sendo estudadas para inovar no governo.

Inteligência artificial (IA)

A Inteligência Artificial (IA) é uma forma avançada de programação que permite às máquinas simular a capacidade humana de raciocinar (usar regras lógicas a dados para concluir algo), reconhecer padrões, tomar decisões, resolver problemas e sugerir ações.

A IA já faz parte do dia a dia das pessoas tanto em serviços privados quanto públicos. A tendência é que seu uso cresça e se torne corriqueiro e ubíquo. Sistemas que “aprendem” e se adaptam serão cada vez mais frequentes e sofisticados. Um exemplo de uso corriqueiro de IA são os assistentes digitais inteligentes, como Siri, da Apple; ou o Google Assistant. Eles são programados para reconhecer instruções de voz, responder a perguntas, pesquisar na internet e acessar serviços e aplicativos.

Máquinas inteligentes podem substituir humanos em trabalhos insalubres e sobreviver a duras condições ambientais. Robôs-advogados usam IA para acelerar o andamento de processos e diminuir margens de erro. E carros autônomos podem reduzir acidentes por falha humana e diminuir engarrafamentos. Serviços de governo podem se beneficiar da IA de várias formas: combatendo fraudes e a evasão fiscal, aumentando a precisão dos diagnósticos, diminuindo o tempo de análise de processos, reduzindo engarrafamentos.

Internet das Coisas (IoT)

O futuro será definido por dispositivos inteligentes que ofertam serviços digitais cada vez mais perspicazes em qualquer lugar1. A IoT trata de conexão desses dispositivos (coisas) com sistemas de Tecnologia da Informação (TI), e entre si, por meio da internet.

De acordo com uma empresa de pesquisa de mercado5, um total de 8,4 bilhões de coisas conectadas serão usadas no mundo em 2017 e atingirá 20,4 bilhões até 2020. E mais, o gasto total em pontos finais e serviços atingirá quase US$ 2 trilhões ainda este ano5.

Dispositivos inteligentes já são usados em diversas áreas: gerenciamento de frotas e de cadeia de suprimentos, rastreamento de objetos físicos (por exemplo, de pacotes ou recipientes); gerenciamento e controle dos transportes rodoviários e ferroviários; monitoramento e controle de cidades por sistemas; dispositivos médicos; e casas inteligentes. E a tendência é que esse uso se expanda.

Além de oportunidades, a tendência é que a IoT traga desafios relacionados a políticas de segurança, à privacidade e à prevenção de cyber crimes também. A possibilidade de gerenciar dispositivos conectados pode ser usada para favorecer ou prejudicar pessoas. A tendência é que esses desafios exijam tecnologias para garantir privacidade e para tratar riscos e ameaças de segurança. Este ano, por exemplo, criminosos trancaram remotamente as portas de um hotel na Áustria6 e exigiram resgate para abri-las. Também este ano, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos aprovou um recall de alguns marcapassos para  reduzir o risco de danos aos pacientes devido à potencial exploração de vulnerabilidade de segurança cibernética7.

A reboque de IoT e de IA, com dispositivos cada vez mais poderosos, a computação perimetral (edge computing) pode se tornar essencial em aplicações baseadas em dados, abrindo espaço para uma topologia mais distribuída e descentralizada.

Analytics

Analisar dados e informações, de forma inteligente.  Este é o foco das técnicas de Analytics, que podem ser associadas a tecnologias de IoT, IA e Data Lake (lago de dados),  para uma maior efetividade.

Analytics, associada a grande volumes de dados com tecnologia para Data Lake e Big Data, é tendência no uso de dados públicos. Big Data Analytics engloba técnicas de análise de informações, ferramentas e plataformas para cruzar e comparar dados, gerando informações qualificadas para que decisões sejam tomadas. Uma inovação recente, a Plataforma de Análise de Dados do Governo Federal – GovData8, utiliza-se de banco de dados não estruturado para montar um grande lago de dados do governo e de técnicas de descoberta e mineração de dados, e de análises estatísticas e cognitivas, para trazer precisão na criação e monitoramento de políticas públicas.

Analytics também permite um maior controle social da atuação do governo a partir de dados abertos e da Lei de Acesso à Informação (LAI). Com técnicas de análise e acesso a grandes volumes de dados abertos, é possível, por exemplo, acompanhar melhor os gastos públicos ou como votam os deputados9.

A associação de grandes volumes de dados à capacidade, cada vez maior, de IA trará evoluções para Analytics, criando uma nova tendência: análise aumentada (augmented analytics), uma abordagem que automatiza a preparação de dados, descoberta de insights e compartilhamento de informações.

Outra tendência a ser observada é IoT Edge Analytics10: análises que são executadas em dispositivos distribuídos, servidores ou gateways localizados mais perto de onde os dados do sensor estão sendo gerados.

O valor das novas tecnologias

Do ponto de vista dos clientes, novos serviços baseados em novas tecnologias trazem comodidades e aumentam as expectativas para os serviços que virão. A tecnologia pode transformar a forma como as pessoas se relacionam ou realizam seu trabalho. Do ponto de vista de governos, elas são uma oportunidade de entregar serviços melhores.

E do ponto de vista das empresas? Novas tecnologias viabilizam modelos novos de negócio e podem ser uma oportunidade, ou podem deixar empresas no escuro e tornar seus serviços obsoletos. Os exemplos são muitos (OCDE Insights): a transmissão de música do Spotify reduziu muito a venda de CDs; o Netflix caminha para expulsar a televisão linear das casas; e o Uber é um desafio para o negócio de táxi. E o que esses serviços têm em comum? O uso de tecnologia, como IA, apoiando os modelos de negócio novos.

Se é oportunidade ou desafio depende do lado que se olha. O Uber viu uma oportunidade de gerar resultado com: novas tecnologias, uma capacidade excedente de carros ociosos e um modelo de economia compartilhada11. O negócio táxi, que não viu tais possibilidades, enfrenta desafios.

A questão é: se estudar tendências tecnológicas pode ajudar a entregar serviços melhores e pode ser a diferença entre ter a mudança como oportunidade ou desafio, que tal se dedicar a observar o que estar por vir?

Referências

1 - Gartner Top Strategic Technology Trends for 2018. Em: goo.gl/oGXuFm
2 - Deloitte Tech Trends 2017: The kinetic enterprise. Em: goo.gl/Lkn7Ip
3 - http://hbrbr.uol.com.br/uma-breve-historia-sobre-blockchain/
4 - Porque Blockchain pode mudar radicalmente a forma de fazer negócios. Em: goo.gl/TkxKfO
5 - Gartner, Press Release. Gartner Says 8.4 Billion Connected "Things" Will Be in Use in 2017. Em: goo.gl/X9bUr9
6 - Hackers trancam quartos de hotel e exigem resgate em bitcoin. Em: goo.gl/bSuxys
7 - Medical Devices Alerts. Em: goo.gl/Dr1Zgm
8 - GovData é uma plataforma construída pelo Serpro, em colaboração com Dataprev e Ministério do Planejamento.
9 - Folha de S. Paulo. Como votam os deputados. Em: goo.gl/tUfhxY
10 - Gartner, Hype Cycle for Analytics and Business Intelligence, 2017
11 - Economia colaborativa. Em: goo.gl/hJY57i

Viviane Malheiros Viviane.jpegÉ doutora em Ciência da Computação pela USP e Project Manager Professional (PMP). Foi pesquisadora visitante na University of Maryland, Baltimore County, EUA. No Serpro, na Coordenação Estratégica de Inovação e Governança de TI (Cegti), trabalha com pesquisas aplicadas e inovações tecnológicas. Interessada em inovação, gosta de aprender e aplicar coisas novas.

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